Descrição
As primeiras aguardentes
Os gregos foram os primeiros a registrar processo de obtenção da "acqua ardens", a água que pegava fogo ou água ardente. Daí, a receita foi parar com os alquimistas que viram, na bebida, propriedades medicinais e místicas. Chegou a ser chamada de "Eau de Vie", a "Água da Vida", e receitada como elixir da longevidade.
São os árabes os inventores dos primeiros equipamentos para a destilação, semelhantes aos que conhecemos hoje. Pela força da expansão do Império Romano, a tecnologia de produção da aguardente espalha-se pelo velho e novo mundo, utilizando porém, cada país, uma matéria prima diferente. Na Itália, a uva para fazer o Grappa; na Alemanha, a cereja para o Kirsch; na Escócia a cevada (ou o milho) para o Whisky; na Rússia o centeio para a Vodka; no Japão e na China, o arroz para o Sakê.
Portugal também absorve a tecnologia dos árabes e destila, a partir do bagaço de uva, a Bagaceira.
Cachaça - a aguardente do Brasil
A história da Cachaça remonta aos primórdios do século XVI, como sendo a primeira bebida destilada nas Américas. Foram os portugueses, que já tomavam e gostavam da Bagaceira, que trouxeram para o Brasil a cana-de-açúcar, quando aqui estabeleceram os primeiros núcleos de povoamento e implantaram a agricultura. Aqui, a planta encontrou condições ideais de clima e solo, de tal maneira que se transformou na primeira grande riqueza do país no período colonial.
Foi meio por acaso que, entre 1532 e 1548, num engenho da Capitania de São Vicente, foi descoberto o "vinho" de cana de açúcar, melhor dizendo, a garapa azeda da cana.
A garapa era a espuma da caldeira em que se purificava o caldo de cana a fogo lento e e não tinha nenhum teor alcoólico, sendo vista como um produto secundário da indústria açucareira. Vinha dos engenhos de rapadura e ficava ao relento, em cochos de madeira, servindo apenas de alimento para os animais. Assim, fermentava com facilidade, gerando o tal "vinho". Um dia, alguém provou aquilo e notou que era melhor do que o cauim, a bebida alcoólica dos índios, produzida com o emprego de cuspe para facilitar a fermentação do milho (ou mandioca).
Esse caldo azedo, com o nome Cagaça, passou então a ser fornecido aos escravos para que pudessem suportar melhor a pesada carga de trabalho nos canaviais. Mas foi somente depois da metade do século XVI é que a Cagaça começou a ser destilada em alambique de barro, posteriormente de cobre, e a aguardente resultante recebeu o nome de cachaça. Em 1572, a alambicagem da cana-de-açúcar já estava presente em quase todos os engenhos do Brasil.
As primeiras destilarias de cachaça - do século XVI ao XVII - eram denominadas de "casas de cozer méis" e logo se multiplicaram pela facilidade de já existirem engenhos para produção de açúcar e rapadura.
A cachaça se populariza e ganha o mundo
Reservada, inicialmente a escravos, a cachaça, com o aprimoramento da produção, atraiu muitos consumidores e passou a ter importância econômica para o Brasil colônia, saindo das senzalas e se introduzindo não só na mesa do senhor do engenho, como também nas casas portuguesas.
Levada pelos navegadores, a bebida brasileira começou a fazer sucesso na Europa e na África. Os traficantes de escravos, principalmente os holandeses, a utilizavam junto com o fumo e o açúcar, como moeda de troca para compra de escravos que iam trabalhar na lavoura colonial. Os negros aderiram rapidamente à bebida. Eles a consumiam tanto para suportar as pesadas condições de trabalho, quanto em momentos de alegria e festividades.
Durante sua presença no nordeste brasileiro, primeiro na Bahia, depois em Pernambuco, os holandeses impuseram um grande aumento da produção de cachaça. O produto era utilizado para o comércio de escravos, enriquecendo os inimigos da Coroa Lusitana. A reação portuguesa veio em 1635 com a proibição da venda do produto. Essa foi a primeira de uma série de infrutíferas tentativas de impedir a produção e o comércio da bebida brasileira.
Expulsos do Brasil em 1654, os holandeses levaram a cultura da cana para as Antilhas, dominada pelos espanhóis. Lá, o desenvolvimento deste cultivo produziu uma outra bebida, com características diferentes, destilada a partir do melaço da cana: o rum.
Símbolo de nacionalismo e brasilidade
Durante o século XVIII, a economia baseada no cultivo da cana foi substituída pela extração do ouro descoberto na região das Minas Gerais. A grande população que correu para aquele local utilizava a cachaça para se aquecer do frio das montanhas da Serra do Espinhaço, disseminando o consumo da bebida pelo interior do país.
Os negros escravos continuavam a usá-la, assim como os mulatos e a florescente população urbana que tentava enriquecer com a mineração apesar dos altos tributos impostos pela Metrópole portuguesa. A popularidade da cachaça aumentava proporcionalmente à impopularidade da Coroa.
Alegando prejuízo à bagaceira - o destilado do reino português - o rei Dom João tentou, em 1743, proibir novamente a produção da aguardente de cana. Mais um fracasso.
Portugal, então, mudou a tática de proibição e passou a taxar o produto. A título de reconstruir Lisboa, abalada por um forte terremoto em 1755, foi criado em 1756 o Imposto Voluntário. Criou-se, também, o Subsídio Literário, imposto destinado a manter as universidades de Portugal, principalmente as de Coimbra e Lisboa. A cachaça teve uma participação significativa nessas arrecadações.
Foi nessa época, que o descontentamento na colônia começou a gerar os primeiros ideais de independência que culminaram na Inconfidência Mineira e na morte de Tiradentes. Como símbolo dessa luta, os brasileiros utilizaram o produto tipicamente nacional e fortemente perseguido pela metrópole: a cachaça, tomada nas reuniões conspiratórias dos revoltosos.
O uso da bebida como símbolo de resistência à dominação colonial foi mantido até a proclamação da independência, em 1822, brindada com cachaça em todo país, demonstração de nacionalismo e brasilidade contra as bebidas estrangeiras, particularmente o Vinho e a Bagaceira portugueses. A situação tornou-se tão extrema que, em certos lugares, não beber era considerado pouco patriótico.
Durante a primeira metade do século XIX ela continuou sendo usada como afirmação política dos brasileiros contra o Imperador e seus partidários portugueses. Na renúncia de D. Pedro I, em 1831, a cachaça já era a bebida de todas as camadas sociais do país. Era consumida em banquetes palacianos e misturada ao gengibre e outros ingredientes, nas festas religiosas portuguesas - o famoso Quentão.
A discriminação pela elite cafeeira
A partir de 1850 começou o declínio do trabalho escravo e intensificou-se uma nova atividade econômica no Brasil: a cafeicultura. Com ela, nasceu um novo setor social, os Barões do Café, enriquecidos pelo campo mas ávidos por morarem, portarem-se, vestirem-se e pensarem como os habitantes dos centros urbanos. Substituir os rudes hábitos rurais e consumir produtos estrangeiros era portar-se como europeu.
Lamentavelmente, nessa época instalou-se um largo preconceito contra tudo que era brasileiro: foi a fase da moda européia, copiando-se, sobretudo, a França; a época da imigração em massa de italianos e alemães e da tentativa do "branqueamento" da nação.
O preconceito manifestava-se contra os produtos nacionais, tidos como coisas sem valor destinados a pessoas pobres, incultas e, geralmente, negras. A abolição da escravatura, em 1888, contribuiu ainda mais para aumentar a discriminação racial e cultural. Sem trabalho, sem teto e sem oportunidades, os negros livres foram lançados à marginalidade social e econômica. O sofrimento, como historicamente foi, continuou sendo amenizado pela bebida que ele ajudou a criar.
A reação Modernista
O preconceito ganhou termos pejorativos como cachaceiro, pinguço, pé-de-cana etc. Porém, em oposição a essas idéias discriminatórias e elitistas, formou-se o movimento de intelectuais, artistas e literatos conhecidos como Modernistas. A Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, iniciou o processo de redescobrimento da brasilidade, criticando com ironia e inteligência a tentativa de importação de modelos europeus de cultura e comportamento.
Literatura, pintura e poesia tiveram um nova rota a seguir a partir deste movimento cujo símbolo era a antropofagia, ou seja o que é mandado pelos gringos será literalmente comido e absorvido, assim como alguns de nossos índios fizeram com os europeus.
Acima de tudo, o Modernismo valorizava a cultura brasileira. Resgatou-se o samba, que se transforma no carnaval e hoje atrai milhares de turistas e a feijoada foi valorizada como comida brasileira. De novo a cachaça entrava em cena para as elites.
Um dos seus maiores expoentes, Mário de Andrade, teve sua atenção chamada pela Cachaça e dedicou-lhe um estudo chamado "Os Eufemismos da Cachaça". No decorrer do século XX, outros importantes intelectuais como Luís da Câmara Cascudo, Gilberto Freire e Mário Souto Maior, entre outros, estudaram sua importância cultural, econômica e histórica para o Brasil. Seu papel destacado pode ser verificado por sua presença não só na literatura, mas na música e no folclore do país.
A busca pela qualidade
Durante a segunda metade do século passado, a cachaça passou a perseguir padrões de qualidade internacionais em sua produção. Atualmente, o destilado brasileiro pode ser comparado aos melhores destilados do mundo.
No exterior, a bebida vem ganhando destaque entre um público sofisticado. Aliás, todos os que já recepcionaram estrangeiros no Brasil sabem que a bebida é o mais apreciado cartão de visitas do país. O sucesso no exterior é puxado pelo principal coquetel feito com a bebida, a famosa caipirinha.
No Brasil, a mistura de cachaça, limão e açúcar foi popularizada como bebida medicinal destinada a curar doenças como a gripe. Com a adição de gelo, conquistou o paladar de todos os brasileiros e vem ganhando o resto do mundo. Nos últimos anos do milênio iniciou-se um processo que poderá acabar em definitivo com o preconceito e reconquistar o prestígio e o orgulho da cachaça.
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